O Governo da República apresentou uma intenção de rever o Código do Trabalho. Os sindicatos reagiram com o que tinham ao seu alcance: marcaram uma greve geral. E antes chegasse o dia da greve, chegou a distinção da revista The Economist que coloca Portugal como “Economia do Ano” em 2025.
E foi aí que muitos dos que defendem a revisão da lei laboral decidiram perguntar — com ironia ou espanto — o que justifica uma greve geral num país elogiado internacionalmente? O que moverá os sindicatos quando o reconhecimento chega lá de fora?
A resposta é simples: é exatamente isso. O motivo da greve não é a economia estar mal. É quererem mexer nas regras que ajudaram a economia a ficar bem.
Durante anos, ouvimos que Portugal precisava de estabilidade, previsibilidade, confiança. As empresas planearam, os trabalhadores adaptaram-se, o Estado e o País ganharam. E agora que o modelo mostra resultados, querem alterá-lo novamente?
É legítimo querer melhorar o que já existe. Mas há um abismo entre melhorar e desfigurar. Entre corrigir excessos e fragilizar direitos. Quando se fala em “flexibilizar”, convém perguntar para quem. E quando se fala em “adaptar”, importa saber quem é que vai ter de se adaptar mais.
Não há maior contradição do que celebrar um feito económico e, ao mesmo tempo, pôr em causa as condições que o tornaram possível. E neste caso não há incoerência. Há uma opção política. E como todas as opções, há consequências.
A greve não é contra o sucesso. É contra a ideia de que o sucesso só se aguenta à custa de uns e não de todos. Que a economia cresce, sim — mas desde que os trabalhadores não cresçam com ela.
Caro ouvinte, o motivo da greve? Infelizmente está à vista de todos.
(Crónica escrita para Rádio)