Opinião

Falsas expectativas

Não sendo um problema novo, nos últimos cinco anos, a crise da habitação nos Açores agravou-se de forma evidente. O preço das casas subiu, as rendas dispararam, os custos de construção aumentaram e a escassez de mão de obra tornou mais difícil concretizar novos projetos. Ao mesmo tempo, a pressão do turismo e o desajustamento entre salários e custo de vida reduziram ainda mais a capacidade das famílias para encontrar uma casa digna a um preço comportável.
Paradoxalmente, foi também neste período que a Região teve ao seu dispor mais de 60 milhões de euros exclusivamente destinados à habitação, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Nunca houve tantos recursos disponíveis para enfrentar este problema estrutural. E, ainda assim, as respostas continuam a tardar.
Entre anúncios e promessas, o tempo foi passando. A execução ficou aquém do esperado e muitas famílias continuam à espera de soluções que parecem nunca chegar. Em alguns casos, nem sequer chegam respostas da própria Direção Regional da Habitação, mesmo quando estão em causa situações relacionadas com o parque habitacional público já existente. Ao mesmo tempo, permanecem várias habitações fechadas à espera de obras de manutenção, enquanto famílias continuam sem alternativa habitacional.
O caso recente de Ponta Delgada ajuda a perceber a dimensão do problema. Quase 5000 candidaturas foram apresentadas para apenas 102 novas habitações financiadas pelo PRR. Mesmo sabendo que uma mesma família pode candidatar-se a vários empreendimentos, o número continua a revelar uma realidade clara, há muito mais famílias à procura de casa do que casas disponíveis.
Mas estes números mostram também outra coisa. Mostram o efeito perverso de anos de anúncios que foram alimentando expectativas nas pessoas. Cada novo projeto divulgado cria esperança em milhares de famílias. Jovens que querem sair de casa dos pais, casais que desejam iniciar um projeto de vida, famílias que vivem em condições precárias e acreditam que finalmente terão uma oportunidade.
A esta realidade soma-se um outro fator de preocupação. O prazo de execução do PRR termina em agosto de 2026 e existe o risco de alguns projetos não ficarem concluídos em prazo razoável por indisponibilidade financeira o que poderá aumentar ainda mais a frustração face às respostas habitacionais previstas e anunciadas.
Criar esperança sem garantir execução é um erro político e, acima de tudo, uma injustiça social. As famílias não vivem de anúncios, vivem de respostas concretas.