Opinião

filter bubbles

fui “desamigado” por um amigo do facebook, conhecido na vida real, residente em são paulo e apoiante de bolsonaro. a razão? contestei uma publicação dele que alertava os leitores para os malefícios da liberalização das drogas, usando a imagem de amy winehouse (com um aspecto cadavérico para fazer valer o seu ponto de argumentação) e proclamando que a sua morte havia sido uma directa consequência de uma política “de esquerda” errada, demasiado permissiva quanto a estupefacientes.

a minha contestação foi factual: amy winehouse morreu por intoxicação de álcool e não pelo consumo de drogas. sei que a amy gostava da sua gulosa e do seu cavalo e das suas ganzas. e sei que qualquer uma destas contribuiu sobremaneira para a sua desgraça. mas a verdade, publicada e atestada cientificamente por autópsia, é a de que a causa da sua morte se deveu a uma intoxicação alcoólica após um período de abstinência.

claro está que o ter sido bloqueado é tão só sintomático da inflexibilidade de pensamento e intolerância do meu “amigo do facebook”, e não é, por si, motivo de comiseração. não obstante, é reveladora de uma incapacidade de aceitar que havia publicado uma mensagem enviesada e mentirosa, manipulada para ser simplista o suficiente para agradar aos votantes menos informados.

esta incapacidade de ser confrontado com realidades disruptivas ou confirmações do erro é um problema com o qual teremos de lidar com as actuais gerações mais novas e com as futuras que lhes seguirão. não podemos varrer para debaixo do tapete a sujidade que não queremos vista, fazendo desaparecer aqueles que de nós discordam. numa referência mais mundana, marilyn manson, na música apropriadamente intitulada “dogma”, do álbum “portrait of an american family”, canta: “good is the thing that you favor/ evil is your sour flavor/ you cannot sedate all the things you hate”. não podemos sedar aquilo de que não gostamos.

temos liberdade para dizer o que quisermos, sabendo que os outros também usufruem da mesma liberdade. a liberdade de nos ofendermos com algo deve ser directamente proporcional à liberdade de alguém dizer algo que nos possa ofender. e ofendidos que somos, quando o somos, temos a liberdade de fazer valer a nossa ofensa. sem “cultura de cancelamento” ou “politicamente correcto” em excesso. e o ofensor ou reconhece o erro - quando o há - ou mantém a ofensa. a partir daí, a lei define limites.

já aqui o escrevi e escrevê-lo-ei: a liberdade de expressão não deve conhecer limites. no entanto, não quer isto dizer que o exercício da liberdade de expressão não traga consequências para quem a exerce. a liberdade de expressão deve ser ilimitada na sua expressão. contudo, é legalmente limitada na sua esfera de actuação. e é esta a linha que importa definir: opinar não implica, de todo, mobilizar. expressar uma opinião não é, de forma alguma, uma chamada às armas. se o for, então a liberdade de expressão passa a incitação à acção e essa não é ilimitada, porquanto as manifestações práticas que advêm da sua expressão têm consequências reais nas vidas das pessoas-alvo.

a literacia digital é a competência que importa desenvolver nos nossos filhos, “nativos” que são desta era digital e, portanto, vulneráveis à influência das tecnologias de informação desde a primeira vez que vêem um vídeo no youtube ou um episódio da xana toctoc no canal panda. é crucial dotá-los de ferramentas que lhes permitam distinguir a veracidade das publicações que encontram; que lhes permitam pesquisar outras fontes para contra-informação instrutiva; que lhes permitam escapar naturalmente de clickbaits, malware, estratégias de phishing, fake news, e toda uma miríade de novas formas de engano, embuste e fraude que pululam na internet.
a unicidade na utilização da maior parte dos utilizadores faz com que todos usem o mesmo motor de busca (normalmente, o google) para as suas pesquisas, o mesmo browser (o google chrome) para aceder ao motor de busca (com login da conta google para guardar definições e preferências), e acabem por pesquisar apenas nos primeiros dez resultados que saltam à vista - aqueles artificialmente destacados pela publicidade e os restantes por estratégias de search engine optimization.

resultado? os padrões são semelhantes, os resultados nivelam-se pela média, a exigência de utilização e pesquisa baixa consideravelmente, e acabamos por ter os tais apregoados “nativos digitais” como meros utilizadores-base, semi acéfalos, peritos em plataformas sociais, scrolling e liking, forwarding e uploading que pouco ou nada sabem - de facto - sobre tirar partido de um smartphone pela fabulosa e maravilhosa ferramenta de descoberta do mundo que pode ser.

tito de morais, fundador do projecto “miudosegurosna.net”, defendeu recentemente, no jornal da noite da sic notícias, que os pais já não podem ser apenas pais de rua, de bicicleta, de jogos de bola e jogos familiares. também têm de ser pais ao lado dos seus filhos, durante a sua utilização das tecnologias de informação e dos seus dispositivos móveis. limitar o acesso ou o tempo de uso não são estratégias eficazes, diz, é preciso investir tempo para o acompanhamento da exposição à realidade digital dos nossos tempos.

o perigo real da utilização acrítica da nossa “fonte” de acesso à internet (o nosso browser e motor de busca) é que nos fechemos cada vez mais em “filter bubbles” individuais, tornando-nos pouco resistentes à frustração e ao contacto com realidades “desagradáveis”, habituados que estamos a receber apenas estímulos e conteúdos de que gostamos.

o conceito de “filter bubble” é o de que, ao customizarmos a nossa experiência de utilizadores nas mais diversas plataformas - especialmente as de notícias e redes sociais -, estamos cada vez mais a fecharmo-nos na nossa “filter bubble”, que mais não é do que uma bolha de preferências que nos faz receber apenas conteúdos relacionados com aquilo de que gostamos e nos filtra conteúdos menos agradáveis.

muitos defensores de teorias da conspiração relatam histórias de iniciação semelhantes, cujo pano de fundo é normalmente o de terem lido dois ou três artigos sobre uma ou outra teoria da conspiração e depois começarem a receber conteúdos semelhantes, em diferentes plataformas, que acabaram por lhes aguçar o intelecto e alimentar a curiosidade. daí a crentes foram os passos normais destas andanças.

no passado dia 5 de agosto, um júri do texas condenou o teórico da conspiração alex jones ao pagamento de 45,2 milhões de dólares aos pais de uma das crianças vítimas do tiroteio da escola básica sandy hook, que aconteceu a 14 de dezembro de 2012, em newton, connecticut, no qual morreram 26 pessoas, sendo 20 crianças entre os 6 e os 7 anos de idade.

até há pouco tempo, alex jones sustentava que o tiroteio havia sido encenado e que nenhum miúdo havia morrido. ganhou milhões de dólares a espalhar mentiras e a desenvolver teorias da conspiração que trouxeram imenso sofrimento a muitas famílias. ganhou imensos adeptos para o seu site infowars e manteve-se indefectível até ao recente julgamento, altura em que alex jones percebeu que há consequências práticas (e onerosas) para o uso abusivo da nossa liberdade de expressão.

uma coisa é opinar, outra coisa é mentir. da primeira, pode-se discordar, a segunda, deve-se processar.