A crise da habitação não chegou agora aos Açores. Mas aquilo que durante anos foi uma dificuldade para muitos está a transformar-se num obstáculo para cada vez mais pessoas.
Encontrar uma casa compatível com aquilo que se ganha tornou-se difícil. Para alguns, quase impossível.
Vê-se nos jovens que trabalham, mas continuam em casa dos pais. Nos casais que adiam filhos. Nas famílias que procuram durante meses uma renda que consigam suportar. E em quem permanece numa casa inadequada porque mudar deixou de ser financeiramente possível.
E talvez seja esta a parte mais difícil de aceitar: para muitas pessoas, trabalhar já não chega.
Os rendimentos não acompanharam o custo de vida. A habitação aumentou, os alimentos aumentaram, a energia aumentou. O salário, esse, continua um passo atrás.
Quando isto acontece, a habitação deixa de ser apenas um problema económico. Torna-se um problema de liberdade.
Porque quem não consegue sair de casa dos pais não escolhe verdadeiramente quando começa a sua vida adulta. Quem entrega uma parte esmagadora do rendimento numa renda perde capacidade para poupar, constituir família ou simplesmente viver com alguma tranquilidade.
Há medidas anunciadas, investimentos em curso e novas estratégias em preparação. São necessárias.
Mas este é um daqueles assuntos em que o tempo político e o tempo das pessoas não coincidem.
Uma casa que chega daqui a um ano ou dois pode ser importante. Mas pode chegar tarde para quem precisava dela agora.
Este já é, pelo menos para mim, um dos maiores problemas de uma geração inteira: conseguir construir uma vida minimamente estável num tempo em que o essencial se tornou demasiado caro.
A política pode pedir paciência. A vida não.
(Crónica escrita para Rádio)