Opinião

Mobilidade falhada, turismo estagnado

Na quarta-feira da semana passada (14 de outubro), o Governo Regional promoveu um seminário dedicado às Obrigações de Serviço Público, uma iniciativa que merece ser saudada pela importância do tema para a coesão territorial e para o futuro da mobilidade nos Açores.

No entanto, é difícil compreender que um debate sobre transportes, que afetam diariamente a vida dos açorianos, tenha decorrido sem um período destinado a perguntas e pedidos de esclarecimento do público.

Apesar da reduzida assistência, estavam presentes cidadãos com questões pertinentes para colocar e, sobretudo, com preocupações legítimas sobre a realidade dos transportes aéreos e marítimos na Região que entroncam em todas as áreas da vida dos graciosenses, desde a saúde até ao turismo.

Perdeu-se, por isso, uma oportunidade de ouvir quem enfrenta no dia a dia os constrangimentos da mobilidade destas ilhas e de confrontar o discurso institucional com a realidade vivida pelas populações.

A situação da Graciosa é um exemplo claro da distância entre o discurso e os resultados. O turismo não cresce, conforme os dados que já trouxe aqui e que devem preocupar os graciosenses. E deviam preocupar, também, o Governo, mas parece que isso não está a acontecer.

Pergunto como é possível que, numa Região que bateu sucessivos recordes de turismo, a Graciosa continue praticamente estagnada? Lá está, a resposta passa, em grande medida, pelas acessibilidades, nomeadamente ligações rápidas e sem pernoitas nas ilhas de entrada e de saída. E esta realidade também demonstra que o enorme investimento feito anualmente na Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) não está, para já, a servir para nada.

Enquanto persistirem limitações ao nível do transporte aéreo e marítimo, problemas com a conetividade, pouca previsibilidade nas ligações e insuficiente articulação entre mobilidade e promoção turística, dificilmente a ilha conseguirá acompanhar a dinâmica regional.

Esperava-se que o Diretor Regional do Turismo, também palestrante no referido seminário, reconhecesse este problema, impossível de esconder, e que apontasse soluções ou pedisse contribuições para o resolver.

Ao invés disso, o referido dirigente ficou satisfeito com um ligeiro aumento das dormidas de janeiro a agosto, quando comparado com igual período de 2025.

Mas não podemos conformar-nos com isso. Mais do que discutir conceitos e modelos de Obrigações de Serviço Público, é indispensável ouvir as populações e avaliar, com rigor, os resultados concretos das políticas adotadas. Avaliar resultados, é precisamente disso que se trata. Se essa avaliação fosse feita como deve ser, muitas decisões já teriam sido corrigidas.

Para quem vive numa ilha pequena, o sucesso não se mede por anúncios nem por seminários que recusam a participação ativa do público. Mede-se pela capacidade de garantir mobilidade, atrair investimento e criar oportunidades de desenvolvimento. E é precisamente aí que se está a falhar.

Todos repetem que o turismo deve crescer em todas as ilhas, mas, desde 2021, a Graciosa é a única que permanece, de forma evidente, à margem dessa ambição. Perante esta realidade, o silêncio e a aparente indiferença de quem tem responsabilidades são cada vez mais difíceis de aceitar.