Há uma expressão que começa a tornar-se perigosa: “é o mercado”.
Sobe o petróleo? É o mercado. Sobe a eletricidade? É o mercado. Sobe a conta no supermercado? É a conjuntura internacional.
Tudo isto pode ser verdade. Mas o Estado existe precisamente para que as famílias, empresas e instituições não fiquem sozinhas perante aquilo que não conseguem controlar.
Desde 1 de outubro, a gasolina e o gasóleo custam, nos Açores, quase dois euros. A eletricidade no mercado regulado subiu também quase 3%.
Os impactos destes aumentos são muito maiores do que a visibilidade que a situação está a ter (sabe-se lá porquê!). O automóvel continua, em muitas zonas, a não ser uma escolha, mas uma necessidade. E quando sobe o combustível, não aumenta apenas a deslocação para o trabalho. Aumentam os custos das empresas, da agricultura, das pescas, da distribuição e, mais tarde ou mais cedo, aquilo que encontramos nas prateleiras.
É aqui que começa a política.
Em junho, o próprio Parlamento Regional, com a abstenção dos partidos que suportam o Governo, recomendou uma redução imediata do ISP de 10 cêntimos na gasolina e 15 no gasóleo.
É óbvio que o Governo dos Açores não pode baixar o preço do petróleo no mundo. Nem evitar guerras que encarecem a energia. Mas pode decidir quanto desse choque deixa chegar ao bolso dos açorianos.
A autonomia não serve apenas para termos instituições próprias, discursos próprios e orçamento próprio. Serve para podermos responder de forma diferente quando a nossa realidade é diferente.
E é nos momentos difíceis que essa diferença tem de aparecer. Porque quando tudo sobe, governar não é saber a explicação por que subiu. É decidir quem irá absorver este impacto.
Por cá, por inércia, somos todos nós.
(Crónica escrita para Rádio)