Opinião

A classe do “dá”

A Joana e o Pedro conheceram-se ainda na universidade.

Ele estudava História. Ela, Gestão.

É sempre um bom princípio para uma história, duas pessoas conhecem-se na universidade, criam laços e aquilo que começou entre aulas, cafés e exames transforma-se, devagarinho, num projeto de vida.

Terminaram os cursos.

O Pedro conseguiu lugar numa escola. Um contrato de um ano, daqueles que terminam todos os verões para recomeçarem, com sorte, em setembro. Nem sempre na mesma escola. Nem sempre no mesmo concelho.

A Joana começou a trabalhar numa empresa de contabilidade.

Durante algum tempo viveram em casa dos pais dela. O Pedro não era de cá e a solução parecia lógica. Era temporária.

Mas apareceu a pequena Margarida, e o temporário começou a ficar apertado.

O que têm a Joana, o Pedro e a Margarida a ver com aquilo sobre que habitualmente escrevo?

Tudo.

Não existem. São uma família ficcional construída com pedaços da vida de muitas famílias açorianas.

Três pessoas em casa dos pais, não é fácil. Há ajuda, há uma enorme vantagem financeira, mas falta vida própria.

Decidiram procurar casa. Comprar estava fora de hipótese. Resolveram esperar por melhores dias e arrendar.

O mais barato que conseguiram foi um pequeno T1 por 700 euros.

É apertadinho, fica longe do trabalho da Joana, mas vai ter de dar.

Entretanto, o Pedro foi colocado numa escola noutro concelho e precisou de comprar um carro. Com horários diferentes, uma criança e empregos em locais diferentes, um automóvel deixou de chegar.

Agora têm dois.

Não é luxo. É necessidade.

Somando as prestações, lá vão cerca de 400 euros por mês.

Procuraram também uma vaga numa creche gratuita para a Margarida.

Não conseguiram. Como os dois trabalham e não têm quem possa ficar diariamente com a filha. Encontraram uma solução paga.

Mais 250 euros por mês.

Depois há o supermercado.

Antes eram dois. Agora são três. Comida, produtos de higiene, detergentes e todas aquelas pequenas coisas que parecem insignificantes até chegarem juntas à caixa.

Cerca de 750 euros por mês.

Entre trabalho, escola, Margarida, compras e a vida normal, os dois carros consomem cerca de 300 euros mensais em combustível.

E faltam as despesas de casa: eletricidade, água, gás, internet e telemóveis.

Mais 180 euros.

Talvez seja melhor fazer contas.

O Pedro, professor contratado, leva para casa cerca de 1.450 euros. A Joana, licenciada e com alguns anos de experiência numa empresa de contabilidade, cerca de 1.215.

Com os subsídios de alimentação, entram aproximadamente 2.920 euros, num mês normal.

Parece um valor razoável.

E é.

Depois saem 700 de renda, 400 dos carros, 750 no supermercado, 300 em combustível, 180 em despesas de casa e 250 para cuidar da Margarida, sem contar com alguns imprevistos

Sobram cerca de 340 euros se tudo correr bem se não falhar nada.

Já não parece tanto.

E ainda faltam seguros, IUC, revisões, pneus, roupa, medicamentos, uma consulta, uma avaria, um aniversário ou simplesmente uma ida ao cinema, um livro, um eventual jantar fora de casa ou um mimo para a Margarida.

É verdade que existem os subsídios de férias e de Natal. Também é verdade que um carro não precisa de pneus todos os meses.

Mas estas despesas existem.

E é dos 340 euros que terão de sair.

A Joana e o Pedro não são pobres.

E talvez seja precisamente por isso que esta história interessa.

Os dois trabalham. Os dois são licenciados. Não vivem numa casa grande, não conduzem carros de luxo nem tomaram decisões particularmente irresponsáveis.

Fizeram quase tudo aquilo que durante décadas dissemos aos nossos jovens que deviam fazer.

Estudaram, arranjaram emprego, constituíram família, tiveram uma filha e procuraram a sua independência.

O problema é que trabalhar deixou, progressivamente, de significar ter margem.

Entre quem precisa de apoio social e quem vive confortavelmente existe uma enorme quantidade de pessoas que simplesmente vai fazendo contas.

É a classe média do “dá”.

O T1 é pequeno, mas dá.

O carro já tem uns anos, mas dá.

As férias ficam para o próximo ano, mas dá.

A casa própria espera mais um pouco, mas dá.

O segundo filho?

Logo se vê.

E talvez seja aqui que a história deixe de ser apenas sobre custo de vida.

Passa a ser sobre natalidade, habitação, salários, precariedade e sobre a capacidade de oferecer aos nossos jovens condições para construírem uma vida nos Açores.

Durante anos perguntámos como poderíamos convencê-los a ficar.

Talvez devêssemos fazer outra pergunta.

A Joana e o Pedro fizeram a parte deles.

Resta saber se nós fizemos a nossa.