Há decisões políticas que cabem numa folha de orçamento. E há outras que acabam por definir a forma como uma sociedade vive. A mobilidade nos Açores pertence claramente à segunda categoria.
Quando ouvimos falar num concurso de centenas de milhões de euros para as ligações aéreas inter-ilhas, é fácil perdermo-nos nos números. Mas nenhum açoriano compra um bilhete para viajar dentro de uma folha de Excel. Viaja para trabalhar, estudar, visitar os pais, acompanhar um filho ao hospital ou simplesmente porque viver num arquipélago não devia significar, viver isolado.
É precisamente por isso que esta discussão merece ser feita sem slogans. “Nem tudo o que é público funciona bem”. “Nem tudo o que é privado funciona mal”. A verdadeira questão é outra: quem assume o compromisso de garantir que o direito à mobilidade continua a existir quando deixa de ser financeiramente interessante?
Os Açores vivem um paradoxo curioso. Nunca estivemos tão ligados ao mundo. Há mais rotas internacionais que há vinte anos, há mais turistas que há vinte anos. Mas a verdadeira medida da nossa conectividade continua a ser, 20 anos depois, a facilidade com que um residente das Flores chega ao Pico, ou alguém do Corvo consegue tratar da sua vida em São Miguel.
É aí que se mede a qualidade da autonomia. Não apenas na capacidade de decidir, mas na capacidade de assegurar que as decisões melhoram a vida das pessoas.
A insularidade nunca desaparecerá. Faz parte da nossa identidade. O que pode desaparecer é a sensação de que ela limita o nosso destino.
Porque um arquipélago não se une apenas com aviões ou barcos. Une-se quando cada cidadão sente que vive à mesma distância dos seus direitos.
(Crónica escrita para Rádio)