Há um conceito que os açorianos conhecem bem, mesmo quando ninguém o verbaliza: viver numa ilha é bonito, mas não pode ser uma condenação.
A mobilidade voltou esta semana ao centro da conversa pública nos Açores. Fala-se de concursos, obrigações de serviço público, verbas da República, privatizações, cadernos de encargos e garantias laborais. Sendo tudo isso importante, há algo para mim ainda mais importante: por detrás de cada uma destas palavras está a vida concreta das pessoas.
Está o estudante que precisa estudar fora da sua ilha. Está o doente que precisa de se deslocar para uma consulta. Está a família que conta os euros antes de avançar para uma viagem. Está também o empresário que não consegue prometer prazos porque o mar e o ar continuam a ser, demasiadas vezes, fronteiras difíceis.
A questão até pode não ser se o modelo deve ser público, privado ou misto. A questão é saber se o Estado — regional e nacional — continua disposto a reconhecer que a coesão territorial não é história, mas sim uma responsabilidade diária.
Quando se fala da SATA, convém não cair em simplificações. Houve erros, dívidas, decisões difíceis e limites impostos. Mas também convém não esquecer que uma companhia aérea, nos Açores, nunca é apenas uma empresa. É parte da infraestrutura emocional, económica e democrática da Região.
O perigo está em transformar a mobilidade num problema contabilístico. Porque, quando isso acontece, os cidadãos passam a ser vistos como custos, e não como pessoas com direito a circular, trabalhar, estudar, cuidar e regressar.
Nunca vi os Açores a pedir privilégios. Só pedimos que a geografia não seja usada como desculpa para desigualdade.
E talvez seja esta a grande pergunta desta semana: quanto vale, para um País centralista, manter nove ilhas verdadeiramente ligadas?
Por mim, um território só é inteiro quando ninguém sente que nasceu na margem.
(Crónica escrita para Rádio)