Existem números que servem para comunicar. E existem números que servem para compreender.
Diz-se, com natural orgulho, que no verão IATA de 2026 temos 16 companhias aéreas a operar para a Região, mais de 30 rotas e ligações diretas a 12 países da Europa, da América do Norte e de África. À primeira vista, parece um retrato animador. Talvez até pareça a maior conectividade internacional de sempre.
Mas um olhar atento mostra outros números.
Em maio, já em plena aproximação à época alta, desembarcaram nos aeroportos dos Açores 186.824 passageiros. Menos 12,7% do que em maio de 2025. Foi o quinto mês consecutivo de queda.
E quando cinco meses consecutivos dizem a mesma coisa, não é um espirro. É uma gripe.
O turismo também confirma essa realidade. Em abril, as dormidas nos alojamentos turísticos caíram 12,3%. No acumulado dos primeiros quatro meses do ano, os Açores registaram 868,7 mil dormidas, menos 7,7% do que no período homólogo. Os hóspedes também diminuíram, ficando nos 282,9 mil, uma quebra de 7,6%.
Podemos, naturalmente, encontrar explicações. E há sempre explicações. O ano anterior foi forte. A procura mudou. Os mercados reajustaram. A concorrência aumentou. Existe uma guerra no Médio Oriente.
Mas a questão central talvez seja mais simples.
De que nos serve ter mais companhias se temos menos passageiros? De que nos serve anunciar mais rotas se os lugares disponíveis continuam a não chegar? De que nos serve falar de conectividade histórica se, ao mesmo tempo, o setor sente menos procura, menos reservas, menos dormidas e menos movimento?
Existe uma diferença fundamental entre número de companhias e capacidade real.
O número de companhias ajuda a diversificar mercados. Isso é importante. Uma companhia que liga os Açores ao Canadá, à Alemanha, à Áustria ou a outro mercado externo pode abrir portas, criar notoriedade e reduzir dependências. Ninguém deve desvalorizar isso.
Mas os lugares disponíveis são outra coisa.
Os lugares disponíveis são aquilo que alimenta a máquina turística. São eles que trazem pessoas para os hotéis, para o alojamento local, para os restaurantes, para as rent-a-car, para os guias, para as empresas marítimo-turísticas, para os pequenos comércios, para os táxis, para os cafés, para as mercearias e para as nove ilhas.
Uma companhia pode dar prestígio. Um lugar ocupado dá economia.
E entre querer visitar os Açores e conseguir visitar os Açores existe uma diferença enorme.
Essa diferença chama-se acessibilidade.
Podemos substituir nomes. Podemos anunciar novas rotas. Podemos mudar a narrativa. Mas, se a capacidade líquida diminui, se os preços sobem e se o mercado perde competitividade, o turista não espera pacientemente que resolvamos o problema.
Escolhe outro destino.
A promoção turística, quando existe, pode criar vontade. Pode despertar curiosidade. Pode colocar os Açores no mapa mental de quem procura natureza, tranquilidade e diferença. Mas promover um destino sem garantir capacidade para o alcançar é como ter uma montra lindíssima e a loja sem produto na prateleira.
A pergunta, por isso, não deve ser apenas quantas companhias voam para os Açores.
Mas sim se existem lugares suficientes para trazer aos Açores quem nos quer visitar.
Porque, afinal, só ter montra não traz pão.