Opinião

Prometeu

Há políticos que parecem julgar que o jornal de hoje só serve para embrulhar o peixe de amanhã, ou com mais propriedade, a carne de amanhã, e, porque pensam assim, vão reagindo aos problemas com promessas, como se no dia seguinte tudo ficasse esquecido.
Nesta matéria, o Secretário Regional da Agricultura e Alimentação, António Ventura, é um autêntico suprassumo, o pináculo dos nossos governantes regionais. Chega a ser tanto, tanto, mas tanto, que provavelmente até acredita no que diz.
O certo é que, por vezes, a coisa até passa, mas bendito seja o arquivo digital do DI, onde abunda a prova documental do que afirmamos e que nos vai avivando a memória do que disse Ventura, que sendo um titã da política regional e um lírico por natureza, até podia passar a utilizar o mitológico nome de Prometeu.
Sendo curto o espaço, vamos à prova.
A 21 de setembro de 2024, sobre a falta de água para a lavoura nos Altares e no Raminho, podia ler-se na capa do DI: "o governo garante que vai construir uma lagoa". No interior, o nosso Prometeu do burgo prometeu: "esperemos que em 2025, no máximo 2026, a lagoa esteja concluída" pois "o que interessa agora é preparar o futuro".
Infelizmente, o futuro já comeu 2025 e metade de 2026. Faltam menos de dez dias para o verão, e até agora nem projeto, nem construção, muito menos água na prometida lagoa, mas pode ser que na Feira Açores entre sorrisos, fotos, bacalhaus e anúncios de recordes em coisas nunca antes vistas, algum lavrador do norte da ilha avive a memória ao Senhor Secretário, que de acartar então percebe, a ver se em 2027 não tem de gastar o tempo, a gasolina e o dinheiro que gastou a acartar água em 2024, 2025 e, provavelmente, também em 2026.
Vã foi a promessa de Prometeu.