Opinião

Nevoeiro do nosso descontentamento

Este recente período de nevoeiros que afetou os Açores durante praticamente duas semanas consecutivas e do qual ainda não nos livrámos, voltou a expor, de forma explicita, as fragilidades do sistema de mobilidade na Região.

Como acontece sempre nestes casos, surgiram inúmeras análises de vários quadrantes, umas mais fundamentadas do que outras, mas há uma evidência que ninguém pode ignorar: o caos instalado nos transportes aéreos não é apenas fruto das condições climatéricas, é também resultado de opções tomadas.

É justo reconhecer a dedicação das tripulações que fizeram tudo para levar os seus passageiros a casa e em segurança e, também, a resiliência de muitos trabalhadores de terra, que, em condições difíceis, procuraram dar resposta a uma situação que os ultrapassa claramente.

Também é verdade que nem todas as experiências terão sido positivas. Mas o problema não está nos profissionais, está no próprio desenho do sistema de transportes.

E o sistema falha, antes de mais, porque continua a assentar, quase exclusivamente, no transporte aéreo. Esta dependência é, no meu entendimento, um erro grave.

No episódio da aterragem de emergência do avião da Air Transat na Terceira (2001) e na crise das poeiras vulcânicas (2010), foi o transporte marítimo de passageiros que reduziu os impactos negativos. Nestas duas situações ficou demonstrado que o transporte marítimo pode assumir um papel complementar decisivo.

A isto soma-se outra vulnerabilidade devido à concentração quase total da frota da SATA numa única ilha. Este é um assunto complexo que deixo para os especialistas, mas não será difícil acreditar que numa região exposta a riscos sísmicos, vulcânicos e meteorológicos, qualquer centralização pode tornar-se numa autêntica armadilha. Já diz o nosso povo que não se deve meter os ovos todos no mesmo cesto. A redundância não pode ser considerada um luxo. É, tão só, uma necessidade básica de qualquer serviço que se quer resiliente.

Mas as falhas não se ficam pela estratégia. Ao nível operacional, o cenário observado foi, em muitos casos, inaceitável. É difícil compreender como, perante milhares de passageiros retidos, tenham circulado aeronaves com lugares vazios. Isto revela descoordenação, rigidez processual e, sobretudo, falta de capacidade de resposta em tempo real.

Igualmente inadmissível, e que vai entroncar no já referido, é o funcionamento limitado dos serviços de atendimento. Não faz sentido que as lojas da SATA encerrem antes de concluída a operação do último voo, nem que, em momentos de

crise, não exista pessoal habilitado nas salas de embarque para proceder a alterações imediatas de voos. O que deveria ser um serviço de proximidade transforma-se, assim, numa fonte adicional de frustração e sentimento de abandono para os passageiros que desesperam por soluções.

No caso da ANA, reconhece-se o esforço feito no Aeroporto de Ponta Delgada para mitigar o desconforto de quem foi forçado a pernoitar nas instalações. Ainda assim, impõe-se saber, com os resultados financeiros que a gestão aeroportuária tem vindo a apresentar, porque não estão já implementadas soluções tecnológicas mais avançadas que permitam operar em condições de visibilidade reduzida. Havendo novos equipamentos, como se ouve dizer que existem em arquipélagos que comportam os mesmos riscos, não se pode continuar a adiar, indefinidamente, a sua implementação numa região dependente do transporte aéreo.

Por fim, não posso deixar de assinalar, e criticar sem qualquer reserva, o comportamento de alguns agentes económicos que aproveitaram este momento de fragilidade para inflacionar preços de alojamento de forma absolutamente desproporcionada. Não é apenas uma questão de mercado, é, também, uma questão de ética. E o que vimos foi, claramente, ganância.