Opinião

Do Torreão Da Fajã: o açorianocentrismo e a falta de bom senso

Sou cidadão do mundo, socialista formado politicamente nos movimentos soberanistas e independentistas açorianos do início da década de noventa. Luto, desde sempre, por uns Açores melhores e que sejam local de eleição para os que optaram por aqui viver. Contudo, fico “incrédulo” ao ver os posicionamentos “açor-cêntricos” de alguns dos nossos governantes, baseados em retórica fácil, sem a devida sustentação técnica e científica do nosso “valor intrínseco”. Muito parla più.

Há um traço recorrente no discurso político regional, enraizado numa linha académica que vigora desde 1976, que importa desmontar: o açorianocentrismo acrítico, essa convicção quase dogmática de que os Açores ocupam um lugar central no mundo, não por evidência cientificamente demonstrada, mas por insistência repetida baseada apenas no nosso capital histórico… é uma falácia. Valorizar os Açores é legítimo. É imprescindível e necessário. O problema começa quando essa valorização deixa de assentar em dados, análise técnica e fundamentos científicos, passando a viver apenas de retórica política e de autoafirmação vazia baseada na nossa geografia. Confunde-se orgulho com sobranceria, estratégia com propaganda.

A verdade é simples: relevância geoestratégica, importância ambiental ou potencial económico não se proclamam… demonstram-se. Demonstram-se com indicadores sólidos, estudos comparativos internacionais, políticas públicas avaliadas e resultados mensuráveis. Sem isso, tudo o que resta é discurso. E, por si só, o discurso não atrai investimento, não fixa talento e não cria prosperidade sustentável.

Tudo isto a propósito de… o episódio da saída da Ryanair dos Açores é um exemplo paradigmático dessa falta de noção do ridículo. Em vez de uma análise fria sobre competitividade, custos operacionais ou massa crítica de procura, assistimos a reações inflamadas e desligadas da realidade do setor. Os nossos governantes acharam que os “O’Leary” estavam a fazer bluff e que viriam “comer na nossa mão”. Errado, como se viu.

Mas, mais grave do que a saída em si, foi a forma como foi enquadrada: indignação primeiro, incredulidade depois, como se o mundo tivesse falhado aos Açores. Esta postura revela uma visão fechada, onde se assume que a centralidade é um dado adquirido e não uma conquista permanente. Falta mundo aos nossos governantes.

…e de… o recente episódio protagonizado pelo Presidente do Governo, à saída do Conselho Superior de Defesa Nacional, é mais uma expressão do açorianocentrismo sem urbanidade. À saída de uma reunião sob segredo de Estado, tivemos uma nova proclamação da nossa centralidade geoestratégica e da sua relevância para o financiamento regional. Outra vez a mesma história, agravada pelo facto de ter violado uma regra institucional.

Como sabem, aqui no Torreão, desde o início, abordaram-se os temas do “capital natural” e do “capital estratégico”. Mas isso exige um caminho sério, tecnicamente sustentado. A centralidade não se declara: mede-se, compara-se e prova-se com métricas objetivas. Deste modo, recomenda-se ao Sr. Presidente do Governo que, em vez de “furar o segredo de Estado”, promova estudos credíveis que sustentem esta narrativa.

Por fim… se queremos um projeto de futuro para os Açores, ele tem de assentar no realismo, na exigência técnica e na integração global. O mundo não começa nem acaba nos Açores. E reconhecer isso não diminui a Região — é o primeiro passo para a afirmar com seriedade.