Fugir às respostas e contornar os problemas, fingindo que não existem, é um erro na política como é na vida.
Adiar o confronto com o que está mal pode dar uma sensação momentânea de alívio. Evita-se o desgaste, ganha-se tempo, evita-se o conflito. Mas esse conforto é sempre provisório.
Os problemas que não se enfrentam não desaparecem. Ficam. Crescem. E tendem a voltar mais rigorosos do que eram no início.
Na política, isso é particularmente visível. Há sempre a tentação de empurrar decisões difíceis para mais tarde. De escolher o caminho mais fácil, o menos polémico, o que garante menos desgaste imediato. E depois aparecem os remendos.
Pequenas soluções para grandes problemas. Medidas que resolvem o sintoma, mas não tocam na causa. Intervenções pensadas para acalmar o momento, não para resolver de forma definitiva.
Durante algum tempo, parece funcionar. A pressão diminui, o assunto sai dos jornais, a sensação de controlo regressa. Mas é apenas isso: uma sensação.
O problema continua lá. À espera. E quando regressa, regressa quase sempre mais complexo, mais caro e mais difícil de resolver. Isto não é apenas um problema político. É um reflexo humano. Todos nós, em algum momento, já evitámos enfrentar algo que sabíamos ser inevitável.
Mas governar também não pode ser isso. Governar é assumir que há momentos em que não há decisões fáceis. Em que é preciso escolher o caminho mais exigente porque é o único que resolve, efetivamente.
Adiar pode parecer prudência, mas muitas vezes é só falta de coragem.
E a política, quando começa a fugir dos problemas em vez de os enfrentar, deixa de servir o futuro e passa apenas a gerir o presente. Pensem bem, não é isso que andamos todos a sentir?
(Crónica escrita para Rádio)