Do alto do Torreão da Fajã, os números chegam sempre antes das explicações.
E, quando falamos de educação, raramente são neutros: revelam a medida das nossas prioridades coletivas. Os dados mais recentes voltam a colocar os Açores perante uma realidade difícil de contornar:
estamos a divergir do país nos indicadores mais determinantes para o futuro de qualquer comunidade.
A taxa de abandono escolar precoce subiu para 21,1% em 2025, depois de 19,8% em 2024. O aumento pode parecer modesto, apenas 1,3 pontos percentuais, mas ganha outra dimensão quando comparado com o restante do país. Em Portugal, o abandono continua a descer, passando de 6,6% para 6,1%.
Reforça-se, assim, a evidência: a distância não é apenas estatística, é estrutural. São cerca de 15 pontos percentuais que nos separam da média nacional, e o mais inquietante é a normalização silenciosa deste fosso. Há um travo a regressão, quase como se voltássemos ao início da década de noventa, no apogeu do “mota-amarelismo”, quando era habitual ver as salas de aula esvaziarem ao longo do ano letivo.
Esta fragilidade não é recente. Em 2020, os Açores registavam 23,3% de abandono precoce. O indicador recuou até 19,8% e agora volta a subir. Mais do que volatilidade, esta oscilação expõe a dificuldade de consolidar políticas educativas e sociais capazes de produzir melhorias consistentes e duradouras.
Caso para perguntar: não vamos acordar para a vida?
Afinal, o que temos? Mais de um em cada cinco jovens açorianos sai do sistema educativo sem concluir o ensino secundário. É um sinal persistente de fragilidade e um terreno fértil para a reprodução de ciclos de pobreza. Continuamos demasiado presos aos achismos e à ideia de que resolveremos o problema com soluções requentadas.
No fundo, evita-se enfrentar o essencial: só reduziremos o abandono quando mudarmos a conceção da intervenção social. Temos de assumir que as crianças são o cerne da sociedade e que, por elas, devemos ser firmes, também com as famílias, sempre que as responsabilidades falham. Quando isso acontece, o Estado tem de intervir. Caso contrário, perpetuaremos ciclos de ignorância e pobreza.
Os “beatos salus” dirão que os níveis gerais de escolaridade têm vindo a melhorar. No ensino básico, a taxa aproxima-se dos 87,2%, enquanto no secundário ronda os 45,9%. São progressos reais, mas insuficientes para esconder o essencial: continuamos atrás da esmagadora maioria das regiões europeias.
É, porém, no ensino superior que o retrato se torna mais exigente — e mais preocupante. Nos Açores, apenas cerca de 18% da população adulta possui formação superior. O indicador cresce, mas a um ritmo demasiado lento para uma economia cada vez mais dependente do conhecimento e da qualificação técnica.
Há uma ligação evidente entre todos estes dados: uma região que não consegue reter os seus jovens na escola dificilmente alimentará o percurso rumo ao ensino superior. O abandono de hoje é a escassez de quadros qualificados de amanhã e representa uma fatura que nenhuma estratégia de desenvolvimento pode ignorar.
Do Torreão, a pergunta impõe-se com a clareza das coisas simples: que futuro queremos construir se continuamos a perder tantos pelo caminho e a formar poucos no topo? Enquanto o abandono não descer para níveis residuais e o ensino superior não acelerar, persistirá uma dúvida difícil de ignorar: estaremos verdadeiramente a preparar o futuro ou apenas a adiar o atraso?
Do Torreão, seguimos atentos.