Alguém ainda se lembra de como foi montado o espetáculo do aumento do preço do leite na Graciosa e na Terceira há um ano? Convém recordar, sobretudo para quem agora faz de conta que não sabe de nada.
A Lactogal reuniu em Assembleia Geral na Graciosa em fevereiro de 2025 e já tinha decidido um aumento do preço do leite para as duas ilhas. Tudo definido, tudo preparado. Mas o Governo fez questão de pedir que o anúncio fosse adiado para depois de uma reunião previamente marcada, isto apesar de saber que, nesse mesmo dia, decorria uma manifestação com boicote à entrega do leite.
Fez‑se a manifestação. Depois lá chegou o Governo para encenar o momento e, como por magia, anunciar mais 1 cêntimo no preço base e mais 1,5 cêntimos mediante parâmetros de qualidade. Tudo calculado para dar palco ao Presidente do Governo, que apareceu para colher os louros e recitar mais umas declarações de autoelogio.
Segundo Bolieiro, naquele 25 de fevereiro, o Governo era “aliado dos produtores”, queria “sensibilizar a indústria” e assumia um papel “pedagógico e mediador”.
Palavras bonitas, ditas depois de estar tudo decidido pela indústria, sem que o Governo tivesse mexido uma palha. Foi puro aproveitamento político, daqueles que só quem não tem pruridos é capaz de protagonizar.
E agora? Doze meses depois, o cenário é o oposto. O preço pago ao produtor recua 3 cêntimos na Graciosa e na Terceira, um corte que não é apenas uma revisão técnica: é um ataque direto ao rendimento de quem trabalha todos os dias para manter viva a produção de leite nestas ilhas.
Depois dos discursos românticos, das promessas públicas e do brilho mediático, não há Governo, não há “mediação”, não há “sensibilização” e muito menos “pedagogia”. Isso acabou no dia em que deixou de dar jeito político.
A UNICOL e a Lactogal refugiam‑se na explicação das “tendências de mercado”. E onde está o Governo? Desapareceu. Silenciou‑se. Sumiu‑se precisamente quando os produtores, os mesmos que antes foram usados como figurantes de propaganda, mais precisavam de ser defendidos.
O que sobra é evidente. Menos rendimento, mais incerteza e um setor que continua a ser tratado como descartável e sujeito a agendas alheias à realidade agrícola da Graciosa e da Terceira.
É caso para dizer que estes 3 cêntimos dizem tudo sobre este Governo.