Opinião

Não vale tudo, Sr. secretário!

O final de cada ano é, habitualmente, utilizado por quem tem espaço nos órgãos de comunicação social para efetuar balanços; salientar factos marcantes ou ainda para partilhar desejos que se gostavam de ver realizados no ano seguinte. E era isso mesmo que me preparava para fazer neste último texto do ano. Mas, após ouvir integralmente a audição parlamentar, no passado dia 22 de dezembro, na Comissão de Assuntos Sociais, do secretário regional da Saúde e Desporto acompanhado pelo diretor regional da Saúde e pelo “secretário oficioso para os assuntos pandémicos” e, em particular, de uma frase aí proferida que é totalmente condenável em qualquer Estado de direito democrático, não posso, em nome da minha consciência, fazer de conta que não ouvi. Refiro-me obviamente à culpabilização imputada por parte do secretário Clélio Meneses, sem qualquer pudor, a Tiago Lopes pelos óbitos ocorridos na Santa Casa da Misericórdia do Nordeste. Foi dito por Clélio Meneses, sem pestanejar e até com ar triunfal, o seguinte: “Lamento que alguém que foi responsável pelas 12 mortes no Nordeste venha agora colocar uma questão isolada nos termos em que colocou.” Esta frase, surgida em vez da resposta que se impunha a uma pergunta direta do deputado Tiago Lopes sobre os procedimentos administrativos e comunicacionais entre diversas entidades públicas relacionados com o óbito registado na Vila de Rabo de Peixe, é, sem quaisquer rodeios, uma tentativa de assassinato público do caráter do anterior responsável da Autoridade Regional de Saúde. Trata-se, por isso, de uma afirmação de uma enorme gravidade. Na política, tal como na vida, não vale tudo. Não pode valer! Há linhas vermelhas que não se podem ultrapassar. Há mínimos que não podem ser rebaixados. Há valores que deviam ser sempre superiores a quaisquer posições políticas divergentes. Há princípios que distinguem, ou deviam distinguir, os seres humanos racionais dos demais. Acresce que as “vestes” de governante exigem sempre posturas e comportamentos irrepreensíveis. Por isso, a intenção premeditada de judicialização da vida política é não só atentatória do princípio da separação de poderes, como também um atestado de (auto) incapacidade para dirimir questões políticas no palco político. O desvio para o foro judicial, sem sequer respeitar a sagrada presunção de inocência, diz muito sobre o autor da infame acusação. E não se pode dizer que se tratou de um caso isolado; de uma frase dita no calor de uma discussão “mano a mano” (a audição parlamentar foi efetuada por meios telemáticos); e muito menos de uma afirmação dita sem pensar. Quem acompanhou os trabalhos parlamentares da discussão do programa do XIII Governo dos Açores assistiu à antecâmara do lamentável e condenável episódio protagonizado por Clélio Meneses. Espero, sinceramente, que em 2021 não se dê continuidade, e muito menos cobertura mediática, a este tipo de acusação sumária que inclusivamente, acredito eu, na cabeça do acusador o silêncio do acusado significou claramente uma confissão integral. Não significou! Significou, sim, sabedoria e respeito! De qualquer forma, antes o silêncio, no palco político, do que uma resposta na mesma moeda. É que, infelizmente, os óbitos relacionados com a pandemia não terminaram no dia da posse do atual Governo. Mas nem isso levou o acusador a parar para pensar antes de proferir tamanha alarvidade. O ódio, como diz o nosso sábio povo, é sempre mau conselheiro! Lamentável, Sr. secretário Clélio Meneses!