Opinião

Propaganda do Governo esbarra nos números

As comemorações do Dia Mundial do Turismo, realizadas este domingo na Graciosa, trouxeram à ilha o excelente filme “Graciosa – Inteligência Natural” e uma mesa-redonda dedicada ao setor. A iniciativa foi positiva e merecia uma participação mais expressiva, sobretudo por parte de quem tem responsabilidades e interesses diretos nesta atividade.

Mas um evento desta natureza não pode servir apenas de palco a discursos otimistas, cuidadosamente construídos para esconder aquilo que os números revelam. A intervenção mais esperada percorreu a realidade regional e deteve-se, por momentos, na situação da Graciosa. Foi precisamente aí que a narrativa oficial começou a desfazer-se.

A Secretária Regional preferiu apresentar um quadro cor-de-rosa, embora tenha deixado o aviso de que a próxima época baixa será difícil para todo o setor. Não era preciso grande capacidade de previsão, pois as queixas dos empresários e a leitura das estatísticas já tornam essa dificuldade evidente. O que faltou foi explicar o que o Governo fez, ou não fez, para impedir que a situação chegasse a este ponto.

Quando falou da Graciosa, a governante destacou o crescimento das dormidas e dos proveitos. Só que essa afirmação, apresentada sem contexto, transmite uma imagem enganadora. A realidade não é favorável ao Governo porque a Graciosa não acompanha o crescimento turístico regional e continua a ser deixada para trás.

A limitada oferta de ligações aéreas e marítimas, as constantes falhas nas conexões e a ausência de uma promoção específica e consequente são o resultado de opções políticas, de prioridades erradas e de uma governação que fala muito em coesão, mas aceita que as ilhas mais pequenas partam sempre em desvantagem.

Os números não deixam margem para propaganda. Entre 2019 e 2025, o número de hóspedes nos Açores cresceu 36%. Na Graciosa, diminuiu 4%. Enquanto as restantes ilhas registaram crescimentos entre 15% e 148%, a Graciosa recuou. Chamar a isto crescimento é negar a evidência.

Nas dormidas, o fracasso da governação é ainda mais evidente. Entre 2019 e 2025, a Região cresceu cerca de 44%, enquanto a Graciosa praticamente estagnou, com um aumento por volta de 1%. No mesmo período, as restantes ilhas avançaram entre 23% e 108%. Perante estes resultados, o Governo pode repetir os seus slogans, mas não pode apagar a desigualdade que os próprios dados expõem.

Também se afirmou que os proveitos cresceram. É verdade que, entre 2019 e 2025, os proveitos totais aumentaram 15% na Graciosa. O que não foi dito é que os custos cresceram muito mais, ou seja, cerca de 44%. O resultado foi uma quebra de 15%

nas receitas líquidas, sendo a Graciosa a única ilha onde isso aconteceu. Celebrar proveitos sem falar dos custos e da perda de rentabilidade não é informar, é escolher apenas os números que favorecem a narrativa do Governo.

Por isso, dizer que o turismo cresce em todas as ilhas e durante todo o ano não corresponde à verdade. Veja-se, entre janeiro e agosto de 2026, a Graciosa ultrapassou ligeiramente os números do mesmo período do ano 2025, recuperando muito pouco relativamente aos valores de 2019. Depois de todo este tempo, continuar muito perto do ponto de partida não é sucesso, é estagnação.

A Graciosa anda a marcar passo enquanto outras ilhas avançam. O Governo Regional não pode continuar a refugiar-se em médias regionais que escondem as assimetrias internas. Tem o dever de identificar as causas deste atraso e adotar medidas corretivas, tais como melhorar as acessibilidades, apoiar a qualificação e aumentar da oferta, reforçar a promoção da ilha e criar condições para que a atividade seja sustentável e rentável ao longo de todo o ano. É preciso tratar diferente o que é diferente.

O turismo é uma oportunidade para os Açores, mas só será um verdadeiro pilar de desenvolvimento se também criar oportunidades nas ilhas mais pequenas.

Se o Governo conhece estes números e nada faz, está a aceitar conscientemente a desigualdade. Se não os conhece, revela uma preocupante incapacidade para governar.