Opinião

Escola para lá das paredes

Falar hoje da Educação nos Açores obriga-nos a olhar para aquilo que está a acontecer dentro das nossas escolas. Para as condições em que os alunos aprendem, para os professores e profissionais que todos os dias asseguram o seu funcionamento, para os recursos que existem, ou que faltam e, naturalmente, para os resultados que estamos a conseguir alcançar.

Há sinais que devem preocupar-nos. Uns estão à vista, como a degradação de parte do parque escolar. Outros não se veem numa parede ou num teto, mas são igualmente importantes: as dificuldades na colocação e fixação de professores, a falta de assistentes operacionais, os constrangimentos na Educação Inclusiva, o insucesso e o abandono escolar ou as dúvidas que persistem sobre algumas opções tomadas nos últimos anos.

E há, finalmente, aquilo que deve estar no centro de qualquer política educativa: as aprendizagens.

Os resultados recentemente conhecidos do PISA 2025 são mais um elemento dessa reflexão. Os Açores recuperaram relativamente a 2022, o que devemos reconhecer, mas continuam abaixo da média nacional nos três principais domínios avaliados. Importa também ter presente que os resultados regionais assentam numa amostra reduzida, de apenas 149 alunos de seis escolas, muito distante da participação regional que tivemos, por exemplo, em 2015.

Não devemos, portanto, retirar do PISA conclusões simplistas. Mas também não devemos ignorar os sinais que nos dá sobre as aprendizagens. Uma Região com autonomia em matéria de Educação deve querer conhecer cada vez melhor a sua realidade, avaliá-la com rigor e agir sobre aquilo que precisa de melhorar.

E os desafios estão bem à nossa frente.

Começámos mais um ano letivo com dificuldades na colocação e fixação de professores, falta de assistentes operacionais e problemas na concretização efetiva da Educação Inclusiva.

Não basta termos um bom modelo de inclusão no papel. A verdadeira inclusão acontece quando existe um professor especializado, um psicólogo, um terapeuta, um técnico ou um assistente para a criança que precisa dele. Falamos de milhares de alunos abrangidos por diferentes medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão.

Também continuamos a enfrentar o insucesso e o abandono escolar. Os Açores fizeram um caminho importante ao longo dos anos, mas estamos longe de onde queremos estar. Por detrás de cada taxa existe um jovem e, muitas vezes, dificuldades familiares, insucesso acumulado, desmotivação ou uma resposta que chegou tarde. Combater o abandono começa muito antes de alguém deixar a escola.

Para responder a estes problemas precisamos, antes de mais, de os conhecer.

Porém, em julho deste ano, as Estatísticas da Educação referentes a 2024/2025 ainda estavam em fase final de produção. Sem dados atuais, corremos o risco de governar a Educação através de perceções. E os dados são indispensáveis para avaliar políticas, identificar problemas e decidir onde colocar os recursos.

O mesmo princípio se aplica aos Manuais Digitais. Nunca fui contra a tecnologia nem contra a inovação. Defendo algo muito simples: primeiro avaliamos, depois decidimos.

Se a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores determinou uma avaliação independente ao seu impacto, devemos conhecer as conclusões e perceber os efeitos na leitura, na escrita, na concentração, nas aprendizagens e no bem-estar dos alunos. A tecnologia deve estar ao serviço da Educação e nunca o contrário.

E regressamos às paredes...

Quase seis anos depois de o Partido Socialista ter deixado o Governo dos Açores, é impossível ignorar o estado atual do parque escolar. Em 2020 nem todas as escolas estavam requalificadas e existiam problemas por resolver. Essa realidade deve ser reconhecida.

Mas também não podemos fugir ao presente.

Hoje encontramos necessidades de intervenção mais extensas, problemas de conservação, infiltrações, instalações degradadas e comunidades educativas que convivem há demasiado tempo com soluções provisórias.

Depois de quase seis anos, já não é suficiente explicar o presente através do passado. Governar também é assumir responsabilidade pelo tempo em que se governa.

Se o Governo afirma ter investido mais de 50 milhões de euros no parque escolar nos últimos cinco anos, é legítimo perguntar por que razão chegámos a 2026 com tantos sinais de degradação. Precisamos de manutenção preventiva, prioridades claras e planeamento.

Mas nenhuma destas questões existe isoladamente.

Uma escola pode ter paredes novas e continuar sem professor. Pode ter uma sala renovada e não ter assistentes suficientes. Pode ter computadores e não saber se estão a melhorar as aprendizagens. Pode ter um excelente modelo de inclusão e faltar quem o concretize.

É por isso que o estado das nossas escolas se mede em três dimensões inseparáveis: infraestruturas, pessoas e aprendizagens.

No final, aquilo que verdadeiramente importa é saber se uma criança entra numa escola dos Açores e encontra condições para aprender, se recebe o apoio de que precisa e se sai de lá com mais conhecimento e mais oportunidades para construir o seu futuro.

Porque cuidar da Educação nos Açores, exige que sejamos capazes de olhar para lá das paredes.