Opinião

Kyiv também nos diz respeito

Estive em Kyiv há poucos dias, em representação do Parlamento Europeu, na 18.ª reunião da Comissão Parlamentar de Associação UE-Ucrânia. Regressei com uma convicção ainda mais forte: a guerra na Ucrânia não é uma guerra distante.

Na madrugada de anteontem, Kyiv voltou a ser atacada pela Rússia. Dezenas de mísseis, centenas de drones, mortos, feridos, casas destruídas, famílias em abrigos. Para muitos, será apenas mais uma notícia do telejornal, dormentes que estamos todos a mais de quatro anos de guerra. Mas para quem esteve ali, caminhou naquelas ruas, entrou naquele Parlamento e ouviu quem vive sob ameaça diária, é impossível ficar indiferente.

A viagem até Kyiv mostra logo a realidade de um país em guerra. Não há voos. O espaço aéreo continua fechado. Entra-se por terra, de carro e de comboio, atravessando a noite até chegar a uma capital que resiste. Kyiv não é apenas uma cidade atacada. É uma cidade que trabalha, estuda, recorda os seus mortos e continua a olhar para a Europa como futuro.

Foi isso que vi. Um país ferido, mas não vencido. Um Parlamento a funcionar. Uma sociedade civil exigente. Instituições empenhadas em fazer reformas difíceis em plena guerra. Deputados, autarcas, magistrados, organizações não governamentais e cidadãos que sabem que a adesão à União Europeia não pode ser apenas uma promessa política. Tem de ser precedida pelo caminho do Estado de direito, combate à corrupção, reforma judicial e confiança democrática.

A Ucrânia quer entrar na União Europeia. Deve fazê-lo pelo mérito, cumprindo critérios e consolidando instituições. A exigência não é uma formalidade de Bruxelas; é uma garantia para os ucranianos e para os europeus. Foi isto que transmiti aos governantes ucranianos. Mas, não podemos perder de vista o essencial: a Ucrânia está a pagar com vidas a defesa de princípios que também são nossos. A liberdade de escolher o seu caminho. A integridade das fronteiras. A democracia contra a força. A Europa contra o medo.

E isto também diz respeito aos Açores.

À primeira vista, Kyiv parece longe das nossas ilhas. Mas, os Açores sabem que a distância geográfica nunca significou indiferença geopolítica. Somos uma região atlântica, europeia, aberta ao mundo. Sabemos que o que acontece longe pode chegar perto: na energia, nos alimentos, nas rotas, na segurança, na estabilidade internacional e na própria ideia de Europa.

Quando a Rússia ataca a Ucrânia, não ataca apenas um território. Ataca o direito de um povo decidir livremente o seu futuro. Ataca a regra de que fronteiras não se mudam pela força. Ataca a paz europeia que permitiu a gerações viver sem conhecer a guerra no seu próprio chão.

A solidariedade com a Ucrânia não é uma frase para dias de cerimónia. É uma responsabilidade política. Significa apoiar quem foi atacado. Significa não confundir paz com rendição. Significa exigir que a Europa se mantenha unida, firme e capaz de ajudar a Ucrânia a defender-se e a reconstruir-se.

Os Açores, pela sua história e pela sua posição no Atlântico, conhecem bem o valor estratégico da paz, da democracia e das alianças. Sabemos que a segurança europeia também passa por nós. E sabemos que nenhum povo deve ser deixado sozinho quando luta pela sua liberdade.

Voltei de Kyiv com essa certeza. A adesão da Ucrânia à União Europeia não é apenas um processo técnico, feito de capítulos, relatórios e negociações. É uma promessa a um povo que continua a escolher a Europa enquanto a Rússia tenta impor-lhe a guerra.

Por isso, quando Kyiv é atacada, a Europa não pode habituar-se. Os Açores não podem habituar-se. A guerra pode parecer longe no mapa. Mas aquilo que está em causa está muito perto de nós.

Deputado do PS/Açores no Parlamento Europeu