Opinião

Uma encenação que já cansa

Em maio, quando a União das IPSS dos Açores, alertou para atrasos nos apoios às instituições sociais, a Secretária Regional, Mónica Seidi, apressou-se a qualificar as declarações como alarmistas. A palavra foi escolhida com a ligeireza de quem prefere desvalorizar o aviso a enfrentar a causa. Dias depois, a realidade pôs ordem na retórica, há IPSS em dificuldades.
Há instituições com atrasos no pagamento dos subsídios de férias, outras com pagamentos faseados e outras ainda obrigadas a recorrer a contas caucionadas, mas para a tutela não lhe cabe gerir a situação das IPSS nem pagar vencimentos. Formalmente, a frase tenta parecer prudente, politicamente, é uma confissão de incapacidade.
O PS/Açores tem defendido que as IPSS precisam de financiamento adequado e previsibilidade, não podem continuar a servir de banco do Governo Regional, suportando atrasos e responsabilidades que não lhes pertencem. Cada resposta social financiada com dinheiros públicos deve ter calendário, acordo preparado, profissionais previstos e recursos garantidos.
Também é claro que a Região deve exigir, à República, com mais firmeza, os 4,2 M€ em atraso e as transferências ajustadas à insularidade e aos custos reais das respostas sociais. Mónica Seidi foi mandatária da reeleição de Montenegro, mas as IPSS dos Açores disso nada beneficiaram.
Mas reivindicar não isenta o Governo Regional das suas responsabilidades. As dificuldades agora sentidas resultam, também, dos atrasos no pagamento dos apoios da Direção Regional da Educação. Reclamar em Lisboa não pode, pois, servir de encobrimento dos falhanços nos Açores.
Há ainda uma questão de decência política. Quem trabalha nas IPSS, cuidando de crianças, idosos, pessoas com deficiência e famílias vulneráveis, não pode viver dependente de atrasos administrativos ou explicações de ocasião. O setor social merece muito mais, merece financiamento atempado, contratos plurianuais, atualização realista dos acordos de cooperação e apoio à tesouraria quando a falha pública aperta o garrote.
O setor social é mais do que um parceiro essencial quando convém ao discurso. As IPSS são indispensáveis todos os dias, não apenas quando dão uma boa fotografia com carrinhas à porta. Essa encenação já cansou. Quem as elogia de manhã, as acusa à tarde e as abandona ao fim do dia não está a defender os Açores, está a usá-los.