Opinião

A cidade são as pessoas e os seus hábitos

No seguimento do que tenho vindo a escrever, já falei como as cidades morrem. Importa agora abordar como podem voltar a viver.

E voltar a viver não significa, necessariamente, voltar a ser como antigamente. Por muitas boas memórias que isso traga, dificilmente teremos as mesmas lojas, os mesmos cafés ou as mesmas pessoas. As cidades, como organismos vivos, evoluem. Mudam os hábitos, mudam os consumos, mudam as formas de trabalhar, de circular e até de estar.

Não vale a pena fingir que o tempo não passou. Passou. E ainda bem que passou, a evolução e a modernidade são positivas em muitas coisas.

A questão não é recuperar uma cidade antiga como quem procura uma fotografia do Sr. Nóbrega ou contempla um quadro no Museu Carlos Machado. A questão é perceber como se constrói uma cidade viva no presente e capaz de se manter viva no futuro. Mas sem perder a sua história. Uma cidade capaz de acolher a modernidade sem expulsar aquilo que verdadeiramente a faz existir.

E aquilo que faz uma cidade existir são as pessoas.

A cidade volta a viver quando volta a ser útil. Quando volta a ser fácil de usar. Quando volta a ser possível morar nela. Quando volta a fazer parte da rotina das pessoas. Quando é pensada para as elas.

Não existe cidade viva sem moradores. Pode haver visitantes, turistas, consumidores ocasionais, gente que passa e fotografa. Mas, sem moradores, falta o essencial. Vida.

A habitação não pode ser tratada apenas como produto financeiro, oportunidade de investimento ou promessa de ocasião. É uma necessidade real. E, se queremos devolver vida às cidades, temos de começar por garantir que há casas para quem nelas quer viver. Casas acessíveis, com critérios claros, integradas na cidade e não empurradas sempre para longe de tudo.

Depois vem o ordenamento. Palavra pouco bonita, admito, daquelas que parecem feitas para documentos técnicos. Mas é essencial. Uma cidade precisa de equilíbrio entre habitação, comércio, serviços, espaços públicos e zonas de permanência. Não pode ser apenas dormitório, montra ou destino turístico.

Uma cidade viva precisa de mistura. Precisa de moradores perto do comércio, comércio perto dos serviços, serviços perto dos transportes, transportes ligados às freguesias e espaços públicos onde as pessoas queiram ficar. Parece simples. E, como muitas coisas simples, é difícil de executar bem.

Também o comércio tem de fazer parte desta reflexão. Os consumidores mudaram, isso não significa que o comércio de proximidade tenha deixado de fazer sentido. Significa que precisa de voltar a ser útil, atrativo e ajustado à vida real das pessoas.

É preciso apoiar o investimento, captar lojas âncora, criar pequenos polos de atratividade e desenhar percursos que liguem diferentes zonas da cidade.

A acessibilidade é outro ponto essencial. E aqui convém sermos práticos, porque a vida das pessoas é prática. Isto não significa entregar a cidade ao automóvel. Mas também não significa fingir que todos conseguem chegar ao centro a pé, de bicicleta ou de transporte público, quando vivem em freguesias afastadas, têm filhos, horários complicados, mobilidade reduzida ou simplesmente uma vida cheia de constrangimentos.

A cidade tem de ser pensada para todos. Para quem anda a pé. Para quem usa transporte público. Para quem trabalha no centro. Para quem precisa de estacionar. Para quem quer chegar, tratar da sua vida e voltar.

Pequenas bolsas de estacionamento de proximidade, transportes públicos regulares, melhores horários, informação clara, ligações entre periferia e centro e percursos pedonais confortáveis são essenciais.

Há ainda a animação urbana. Os eventos são importantes. Ajudam, atraem, dão movimento e criam momentos de encontro. Mas uma cidade que só se enche no Natal, na Páscoa, no Carnaval, no verão ou quando há cruzeiros não renasceu.

O que faz falta é vida regular. Pequenas iniciativas ao longo do ano. Atividades culturais, comerciais, desportivas e sociais. Envolvimento das escolas, associações, comerciantes, restaurantes, clubes, freguesias e moradores. Não para fazer da cidade um palco permanente, mas para criar hábitos.

As cidades vivem dos hábitos das pessoas. Do hábito de ir ao centro. Do hábito de parar num café. Do hábito de comprar numa loja. Do hábito de passear ao fim do dia. Do hábito de encontrar alguém conhecido. Do hábito de sentir que aquele espaço também nos pertence.

No fundo, não existe uma fórmula mágica. O que existe são escolhas. E as escolhas dizem muito sobre a cidade que queremos ser. E fazer escolhas é mais difícil do que parece. Porque devolver pessoas à cidade exige mexer em interesses, hábitos, prioridades e comodidades.

Porque uma cidade não é apenas ruas, fachadas, praças, comércio, trânsito ou memória.

A cidade são as pessoas e os seus hábitos.