Opinião

E depois das cerimónias?

Durante alguns dias, os Açores ocuparam o centro da atenção nacional. Discursos, cerimónias, bandeiras, homenagens. A Terceira transformou-se no palco onde Portugal procurou celebrar-se a si próprio

Mas a verdadeira importância destes momentos não está só nas cerimónias. Está também naquilo que permanece depois delas. E aí surge a pergunta: o que fazemos com as ideias aplaudidas?

Ao longo desta semana ouviu-se falar muito dos Açores como região estratégica. Falou-se do mar, da ciência, do espaço, da posição geográfica privilegiada do arquipélago e da sua importância para o futuro do país. Falou-se também dos cinquenta anos da autonomia e do caminho percorrido desde então.

Tudo isso é importante. Mas também é importante que a grandeza estratégica deste território seja mensurável na vida concreta das pessoas.

Mede-se quando um jovem consegue estudar sem ser penalizado pela distância. Mede-se quando uma família encontra respostas de saúde sem ter de enfrentar obstáculos adicionais por viver numa ilha. Mede-se quando uma empresa consegue crescer sem transformar a insularidade numa desvantagem permanente.  Mede-se quando os mais velhos encontram respostas sociais adequadas ao envelhecimento da população.

Por vezes falamos dos Açores como se fossem um ativo geopolítico. E são! Mas antes disso são uma comunidade de cidadãos.

E é isso que eu queria partilhar convosco esta semana.

O futuro não se constrói apenas com discursos sobre estratégia, competitividade ou posicionamento internacional. Constrói-se também com decisões que permitam que quem vive nos Açores sinta os benefícios dessa importância.

Portugal gosta de dizer que é um país atlântico. A frase é bonita. Mas, as frases bonitas têm uma obrigação: corresponder à realidade.

Se os Açores são fundamentais para o país, então essa importância tem que se refletir na mobilidade, na educação, na saúde, na investigação, nas oportunidades económicas e na qualidade de vida.

Porque há uma diferença entre elogiar um território e investir nele. E a história mostra que os países crescem verdadeiramente quando conseguem transformar o reconhecimento em compromisso.

 

(Crónica escrita para Rádio)