Opinião

Geração em suspenso

Há números que, por trás da frieza estatística, nos gritam!

No último trimestre de 2025, 14,1% dos jovens açorianos entre os 16 e os 34 anos não estudavam, não trabalhavam e não frequentavam qualquer formação (Jovens “nem-nem”), percentagem esta bem acima da média nacional que se fixa nos 8,3%. Mas esta não é “apenas” mais uma percentagem: são rapazes e raparigas com talento, vontade e sonhos, mas sem qualquer tipo de ponte para o futuro. E o mais inquietante é exatamente a tendência ascendente deste indicador, que ao longo de 2025, ao invés de decrescer, foi subindo trimestre após trimestre.

Se nos dermos ao trabalho de esmiuçar este indicador, percebemos que o detalhe é ainda mais duro, e que no final de 2025, a percentagem de jovens “nem-nem” entre os 16 e os 24 anos, atingiu 14,6%, sendo que na faixa etária acima (entre os 25 e os 34), fixou-se nos 13,8%. Estes dados não podem mais continuar a ser vistos como um fenómeno “de uma ilha” ou “de uma fase”, porque aquilo que eles refletem, é uma geração a ficar presa num intervalo perigoso entre o que podia ser e o que acaba por acontecer.

Bem sei que o mais fácil é tendermos a não encarar a realidade, e mantermo-nos no conforto de quem apenas analisa do lado de fora, no conforto de um lar onde os mais novos tiverem a sorte de ficar à margem deste flagelo, mas é mais do que tempo de perceber que a cada dia que passa estamos a deixar os nossos jovens pelo caminho, e que lamentavelmente, insistimos em reparar apenas quando já é tarde e o tempo para os recuperar escasseia.

Ainda assim, haverá sempre alguém a ver o copo meio cheio, e a afirmar orgulhosamente que “o desemprego não está assim tão mal”. É verdade que a taxa de desemprego total nos Açores ficou nos 5,1% no final de 2025, até abaixo da média do país. Mas é precisamente por isso que o retrato dos “nem-nem” é tão duro, porque na realidade não estamos a falar apenas de falta de postos de trabalho. Quando nos referimos a estes jovens, estamos a falar de desligamento, de desinteresse, de desencanto pela escola, pela sua formação, pelo seu futuro, de uma parte da juventude que fica fora do radar, que fica à deriva, e de todas as consequências nefastas que daí advêm.

Quando olhamos para o abandono precoce de educação e formação, o alerta torna-se ainda mais alto. Em 2025, a taxa regional situou-se em 21,1%, depois de ter sido 19,8% em 2024, numa subida que contraria a tendência de descida de anos anteriores.  A distância para Portugal Continental (6,1%) mantém-se chocante e persistente, há demasiado tempo.

O Governo Regional apresentou a Estratégia para a Educação Açores 2030, assumindo como meta reduzir este abandono para 15% até 2030.  Pois bem, passado mais de um ano, a pergunta que se impõe é simples e incómoda: onde está, no terreno, o Plano Integrado de Combate ao Abandono Precoce? Onde está a monitorização pública desta estratégia? A quem cabe assumir a responsabilidade destes resultados?  Sem respostas, sobra-nos tão somente a demagogia dos discursos, feitos com pompa e circunstância, tendencialmente com os olhos postos naquilo que mais convêm salientar, nos quais estes jovens não se encontram, pelo contrário, desencontram.

Cada jovem que abandona a escola cedo é uma oportunidade que se fecha, é uma maior probabilidade de emprego precário, de salários baixos, de dependência de apoios sociais, de pobreza e exclusão.  E é também uma dor silenciosa nas famílias, que carrega em si o sentimento de falhar, de “não chegar”, e o medo de se ser empurrado para um corredor sem portas.

Reduzir o abandono e travar o crescimento dos “nem-nem” tem de ser uma urgência regional. E há caminhos concretos para seguir: apostar seriamente na prevenção; criar sistemas de alerta precoce nas escolas para sinalizar risco; reforçar a monitorização do absentismo; intervir com equipas multidisciplinares e respostas caso a caso; envolver autarquias, associações culturais e desportivas, empresas e comunidade.

Se cada jovem conta, e se é desígnio regional não deixar ninguém para trás, então é agora, é já, que temos de provar isso!