Os Açores e os açorianos conhecem, infelizmente, demasiado bem a destruição causada por fenómenos naturais extremos. É com esse olhar, malogradamente treinado, que acompanhámos a devastação provocada pela tempestade Kristin na região centro do País. As imagens são duras, tal como a realidade vivida por quem perdeu rendimentos, habitação, equipamentos ou explorações agrícolas inteiras.
Quando a calamidade acontece, as pessoas não esperam discursos sofisticados nem explicações técnicas. Esperam presença no terreno, clareza nas decisões, respostas rápidas e acompanhamento efetivo. Esperam sentir que não estão sozinhas. E é precisamente aqui que o Governo de Luís Montenegro tem falhado.
Abriu-se um fosso evidente entre aquilo que as pessoas vivem no terreno e a atuação dos poderes públicos. Enquanto famílias, agricultores e pequenos empresários relatam perdas totais, insegurança e incerteza quanto ao futuro, o Governo insiste numa narrativa otimista, distante da realidade. Quando um ministro afirma, com ligeireza, que “as pessoas já receberam o salário” como resposta a uma emergência, o problema não é apenas político. É um problema grave de empatia, de noção da realidade e de compreensão do sofrimento alheio.
Fenómenos desta dimensão não se resolvem com anúncios avulsos nem com a transferência da responsabilidade para formulários, plataformas ou programas que, naquele momento, as pessoas não conseguem sequer compreender. Há danos que levam tempo a reparar — isso ninguém ignora —, mas há decisões que tinham de ter sido antecipadas, assumidas politicamente e enfrentadas de frente. O Governo não antecipou, não enfrentou e não esteve à altura da urgência que a situação exigia.
No Parlamento Europeu, os eurodeputados do Partido Socialista decidiram questionar formalmente a Comissão Europeia. Perante a dimensão dos prejuízos causados pela tempestade Kristin, queremos saber que instrumentos podem ser já acionados, que verbas podem ser mobilizadas no curto prazo e quando podem chegar os apoios efetivamente a quem precisa.
É importante colocar já no terreno apoios para repor o potencial produtivo, pagamentos de crise para compensar perdas e flexibilidade para ajustar rapidamente os programas nacionais. Esses instrumentos existem, mas só fazem sentido se forem usados com procedimentos simplificados e com verdadeiro sentido de urgência.
Desde o início do meu mandato, tenho procurado, de forma consistente, aproximar quem decide da realidade do território e garantir que as políticas europeias são informadas pela vida concreta de agricultores, pescadores e comunidades locais.
O mesmo princípio esteve presente na minha deslocação à Escola Secundária Antero de Quental, no âmbito do programa EUropa. Criar espaço para perguntas, debate e participação cívica, sobretudo junto dos jovens, é essencial para uma democracia mais forte, mais consciente e mais exigente.
O atual Governo dos Açores teve — e tem ainda — ao seu dispor o maior pacote financeiro de sempre. O que resultou das escolhas e da gestão do atual Governo? Temos uma economia mais robusta? Diminuímos as desigualdades? Avançámos nas qualificações? Garantimos mais sustentabilidade e reforçámos a nossa Autonomia?
Em suma, as pessoas hoje vivem melhor e têm mais confiança no seu futuro e no futuro dos seus filhos? Ou, pelo contrário, o Governo limitou-se a baralhar e dar de novo?
(Deputado do PS/Açores no Parlamento Europeu)