Há uma coerência — embora profundamente cínica — na forma como a extrema-direita aborda as questões climáticas. Não é uma coerência moral, científica ou sequer racional.
É uma coerência estratégica, alinhada com interesses económicos muito concretos e uma lógica populista que troca responsabilidade por espetáculo.
Durante anos, os partidos de extrema-direita têm seguido um guião previsível: negar a existência de alterações climáticas ou, na melhor das hipóteses, relativizá-las. Atacam as políticas de mitigação e adaptação climática, ridicularizam a ciência, votam contra as medidas de proteção ambiental e acusam qualquer tentativa de transição ecológica de ser um “ataque às pessoas comuns”.
Tudo isto enquanto protegem, com zelo ideológico, os interesses das empresas que mais lucram com a inação climática — muitas delas suas financiadoras partidárias.
O problema é que o clima não vota, não faz sondagens e não respeita ciclos eleitorais.
Quando os fenómenos extremos chegam — secas prolongadas, incêndios devastadores, cheias súbitas, tempestades cada vez mais frequentes — as realidades impõem-se, mesmo àqueles que passam o tempo a negá-las.
E é aqui que entra a segunda parte do guião: a encenação.
Em Portugal, na última semana, assistimos a mais um episódio exemplar desta hipocrisia. Após intempéries extremas causarem prejuízos reais a famílias, agricultores e empresas, os mesmos que sistematicamente desvalorizam o risco climático surgem, subitamente, como defensores dos “portugueses esquecidos”.
Não para assumir responsabilidades, nem para explicar por que razão combatem políticas de prevenção das alterações climáticas, mas para posar para as câmaras, distribuir uma caixa de águas e garantir que a televisão registava o momento.
A tragédia transforma-se em oportunidade mediática. O sofrimento alheio vira conteúdo. A política reduz-se a um gesto simbólico, cuidadosamente filmado, que nada resolve, mas rende likes, partilhas e minutos de antena.
É o populismo no seu estado mais básico: nenhuma solução estrutural, nenhuma visão do futuro, apenas a exploração mediática da indignação e da dor.
Há algo profundamente perverso neste ciclo. Primeiro, bloqueiam-se políticas que poderiam reduzir o impacto das alterações climáticas. Depois, quando os danos se materializam, capitaliza-se politicamente sobre as consequências dessa mesma inação.
A extrema-direita não é apenas incoerente na questão climática; é oportunista. E essa incoerência tem custos reais, pagos por quem perde colheitas, casas, rendimentos e segurança.
Enquanto houver quem confunda solidariedade com encenação e política pública com teatro, continuaremos a assistir a este ciclo de negação, desastre e cinismo.
O clima, esse, não se deixa enganar por discursos nem por caixas de água distribuídas em frente às câmaras. E, mais cedo ou mais tarde, também os cidadãos deixarão de se enganar.
Porque o tempo ensina aquilo que o ruído tenta esconder: quando a realidade se repete, a memória coletiva ganha forma e os gestos tardios passam a carregar, em silêncio, o peso de uma longa negação.