Opinião

A batuta para um outro caminho

Em agosto Portugal foi referenciado pelo jornal Guardian como “há uma alternativa à austeridade”. Hoje, o défice é o mais baixo dos últimos quarenta anos. O desemprego está a diminuir; a reposição dos direitos dos trabalhadores segue um caminho – e neste particular é interessante analisar o número de greves nos últimos anos (ficará para um próximo artigo); há mais estudantes no ensino superior; 40% dos estudantes que se inscreveram em Mestrados são estrangeiros – mais massa crítica, a globalização do conhecimento a entrar em Portugal - e os juros da dívida baixaram. Por outro lado, há, com realismo, cativações; uma situação mal resolvida com o Banif (obrigações subordinadas); o descongelamento e reposicionamentos na função pública, captação de investimento externo, e mais descentralização para os municípios. Mas, na escolha política, as opções permitem afirmar que vive-se melhor hoje em Portugal do que há dois anos. Não dando importância substancial às agências de Rating, mas elas existem, e para o bem ou para o mal, fazem parte da globalização que a democracia absorveu (ou vice versa). Há dias Portugal recebeu uma boa notícia: a subida do rating, o que permitirá melhores condições de financiamento do país e uma notação de investimento. É claro que os “aceleradores” (PSD) rapidamente vieram afincadamente referir que com eles teria sido mais depressa, os “passadistas” (CDS-PP) apressaram-se a referir que é fruto do trabalho. De forma mais simplex possível, se por um lado os “aceleradores” nas suas opções dispensavam o aumento do salário mínimo; a reposição de salários; a valorização do emprego qualificado; o investimento no conhecimento... É caso, para com firmeza, respirar de alívio pela solução não ter passado pelos “aceleradores” ou pelos “passadistas”, sendo que estes últimos contribuíram para a alteração das condições de acesso ao rendimento social de inserção; para a alteração à Lei de Bases de Ordenamento e Gestão do Espaço Marítimo, onde o direito do povo Açoriano decidir sobre o mar foi afogado; para a alteração, brusca e inadequada, à legislação relativa ao mercado de arrendamento e o “ok” à resolução do BES sem o ler. O que este governo demonstrou e demonstra é que existe outro caminho. Neste outro caminho, muita embora as evidentes melhorias de condições sociais, educacionais, culturais, conhecimento e inovação, falta como em tempos li numa frase retirada de uma entrevista de André Malreaux ao jornal Le Monde,“ Il faut inventer um nouveaux Marx pour expliquer les services”( “É preciso inventar um novo Marx para explicar os serviços”). Perante a globalização, nomeadamente, a revolução da telemática e das energias renováveis - resultante da ciência que se produz e cujo limite é desconhecido - e os serviços e interações que estas promovem, exige-se um novo olhar e agir que a ideologia radical de esquerda ou dos conservadores não cobre, nomeadamente aquelas que são as multiplicidades das situações dos tempos de hoje e muito menos dos tempos de amanhã.