Opinião

Alevanto Cavaquista

Apesar de nenhum prazer me advir do facto de referir nos meus simples escritos a figura de Cavaco Silva, uma vez mais me sinto obrigado a manifestar publicamente um desacordo total com o senhor Silva, como noutros tempos diria Alberto João Jardim. O Presidente da República, sempre tão rigoroso com os procedimentos próprios de um Chefe de Estado, não se coibiu, contrariamente ao dito habitual, de se pronunciar sobre factos políticos nacionais, através de declarações prestadas no estrangeiro, a partir da longínqua Argentina. Verdade é que, sempre que estão em causa questões relacionadas com os Açores e os açorianos, o Professor Cavaco, esquece as regras por si próprio impostas e toca a atacar-nos e à nossa autonomia, desta vez com a agravante de tentar colocar os portugueses do continente contra os portugueses dos Açores. Quem não se recorda do facto de Sua Excelência ter interrompido férias em terras algarvias para fazer uma grave e solene comunicação à Nação por causa das alterações aprovadas do nosso Estatuto Autonómico, como se estivéssemos a cometer um hediondo crime de lesa-pátria? Quer como Primeiro-ministro quer como Presidente da República, Cavaco Silva sempre demonstrou que não morre de amores por nós e muito menos pela descentralização de poderes conquistada pelos açorianos através da implementação da autonomia. Desta vez, o homem de Boliqueime, já em plena e indisfarçada campanha eleitoral, conseguiu o notável feito de se ver acompanhado por uma desafinada orquestra envolvendo os centralistas do continente e o tocador de bombo madeirense. Todo este “alevanto” ficou a dever-se ao facto do Presidente do Governo dos Açores ter decidido, e bem, plasmar no Orçamento da Região a possibilidade de criar uma remuneração compensatória destinada a minimizar os cortes decretados pelo governo de Lisboa, abrangendo os funcionários públicos cujos vencimentos brutos se situam entre os 1.500 e 2.000 euros. Muito embora seja óbvio, é bom relembrar que os anunciados cortes nos vencimentos não se aplicam a quem tenha ordenados inferiores àqueles montantes. Como disse Carlos César, as medidas sociais tomadas “não custam um cêntimo ao Estado ou aos cidadãos de qualquer região do país”. Em abono da verdade, é bom recordar que o próprio Governo da República concede aos funcionários públicos da administração central, como juízes e outras categorias profissionais o chamado “subsídio de fixação” que não é mais do que uma remuneração compensatória, pelo facto de trabalharem nos Açores, a qual nunca foi, nem é posta em causa. Independentemente de outros juízos que se possam tecer acerca da matéria, a decisão do parlamento em aprovar o Orçamento Regional constitui um puro exercício da nossa Autonomia Constitucional que não pode nem deve ser posta em causa. Para o Governo dos Açores, numa altura em que se enfrentam maiores dificuldades, é muito mais importante apoiar as famílias e as empresas açorianas do que construir estádios de futebol ou levar a cabo obras de encher o olho que, muito embora sendo eventualmente necessárias, poderão e deverão aguardar por melhores dias. Apesar do ataque dos centralistas de Lisboa, capitaneados por Cavaco Silva, Passos Coelho, Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes e outros senhores da “capital do império” aonde se incluem transversalmente figurinhas de outros partidos, o povo português em geral e os açorianos em particular, compreendem perfeitamente o alcance dessa medida e aplaudem-na na certeza de que, à semelhança do decido em relação aos mais desfavorecidos aumentando as prestações sociais e congelando os custos relativos às mensalidades das creches, ATL’s e jardins-de-infância, havia que minimizar os nefastos efeitos da crise que atinge todos e, de um modo especial, parte da classe média, deste modo protegida. Vozes como a de Manuel Alegre e até a líderes nacionais de partidos que são oposição ao governo de Carlos César já vieram mostrar a sua concordância com a medida tomada e criticar os laivos centralistas que tiveram origem no “alevanto cavaquista”vindo das pampas argentinas. Esta é a hora de, independentemente de ideologias político-partidárias, apoiarmos quem verdadeiramente coloca os interesses dos açorianos acima de outros quaisquer. Vivam os Açores! Viva a Autonomia!